
A contabilidade de hedge (hedge accounting) determina quanto da cobertura estrutural de um banco se traduz em uma margem financeira líquida (NII) mais estável, em vez de gerar volatilidade na demonstração do resultado do exercício (DRE) e no capital. Atualmente, as regras contábeis atuam como um gargalo para a otimização do balanço patrimonial, e os órgãos normatizadores de ambos os lados do Atlântico (como o IASB e o FASB) estão reescrevendo essas regras.
A Economia da Desconexão Contábil
Para estabilizar os resultados ao longo do ciclo de taxas de juros, os bancos investem seus saldos comportamentalmente estáveis (como depósitos insensíveis às taxas e patrimônio líquido) em carteiras escalonadas de swaps receptores de taxa fixa ou títulos de renda fixa. O problema surge porque os derivativos de hedge são avaliados ao valor justo por meio do resultado em cada período, enquanto os empréstimos e depósitos da carteira bancária são mantidos ao custo amortizado. Sem a contabilidade de hedge, esses hedges econômicos geram ruído no capital e nos resultados.
A contabilidade de hedge resolve isso ao alinhar o momento do reconhecimento, proporcionando benefícios críticos para as instituições:
Estabiliza os resultados ao refletir a marcação a mercado do swap como uma NII mais suave.
Protege o capital ao filtrar as reservas de hedge de fluxo de caixa (CFH) fora do CET1. Permite um balanço mais leve ao financiar com swaps em vez de comprar títulos de renda fixa, preservando a flexibilidade de liquidez.
Proporciona a liberdade para fazer hedge de forma otimizada com base no apetite ao risco de IRRBB, em vez de limitações contábeis.
No entanto, a restrição vinculante é a oferta de itens cobertos elegíveis; o patrimônio líquido e muitos depósitos não são elegíveis, o que limita o quanto do hedge estrutural pode se qualificar.
O Modelo RMA do IASB e a Resposta da Indústria
Em dezembro de 2025, o IASB publicou uma minuta para um novo modelo opcional da IFRS 9 chamado Contabilidade de Mitigação de Risco (RMA), que substituiria a estrutura de macro hedge da IAS 39.
Contudo, o setor expressou uma preocupação significativa. Testes de campo e análises recentes de instituições como o HSBC afirmam que o RMA é inviável da forma como está redigido atualmente. Os principais problemas identificados incluem:
Um "Teste de Excesso" e limites de faixas temporais que podem forçar impactos imediatos e irreversíveis na DRE, mesmo em hedges eficazes.
A exclusão do patrimônio líquido, que força os hedges estruturais de patrimônio a permanecerem em modelos de contabilidade por procuração (proxy).
Modelos comportamentais de depósitos tornando-se estimativas pontuais auditadas.
Diante disso, alternativas pragmáticas foram propostas, como tornar a versão com salvaguarda da UE (carve-out) da IAS 39 na IFRS oficial globalmente, ou criar uma nova abordagem baseada no modelo de negócios chamada "Mantido para Cobertura" (Held for Hedging).
Estamos em um momento decisivo onde a contabilidade pode transformar a maneira como os bancos gerenciam seu risco de taxa de juros na carteira bancária. Para as equipes de Tesouraria e Finanças, os próximos 12 meses exigem ações proativas: as instituições devem mapear sua capacidade de hedge elegível em relação ao RMA, testar o modelo proposto em campo em carteiras reais, fortalecer a governança dos modelos comportamentais de IRRBB e, coletivamente, participar das consultas dos órgãos normatizadores para pressionar por um padrão global único.


